crackOnde há comprador, há fornecedor. No Plano Piloto, a regra não é exceção em relação ao tráfico de drogas. Em cada esquina, próximo a estabelecimentos comerciais, a igrejas, a escolas e até embaixo das árvores das entrequadras, se tornou comum encontrar pessoas maltrapilhas deitadas no chão e sob o efeito do crack, do pó e da maconha. Comerciantes perdem clientela e são alvos de furtos e de assaltos praticados, muitas vezes, por quem quer sustentar o vício. Na rua, a realidade provoca insegurança, revolta e sensação de impotência.

Na escalada do tráfico, houve um aumento de 36,6% na quantidade de flagrantes feitos na área central, na Asa Sul e na Asa Norte. O índice é de janeiro deste ano, comparado com o mesmo período de 2012. As forças de segurança atribuem o resultado a um trabalho intensivo de repressão, mas a população tem a percepção de que a quantidade de usuários de drogas tem aumentado em ritmo acelerado, consequência de um provável crescimento da ação de traficantes no Distrito Federal, unidade da Federação com a maior renda per capita do país.

Ontem à tarde, o Correio percorreu as quadras 108, 308, 109, 309, 208, 408, 410, 411, 104, 403, 301, 304 e 310 Sul, além do Setor Comercial Sul. Os pontos são considerados alvos do tráfico. Em uma delas, uma jovem grávida de oito meses dormia na calçada do comércio debaixo do sol forte e após consumir drogas durante a madrugada. Gizela* tem 23 anos e está anêmica e esquelética. À reportagem, ela admitiu adquirir crack e cocaína com facilidade. “Encontro droga em qualquer esquina. Se o traficante souber que você quer comprar, ele vem até você. Nem precisa se preocupar”, disse (leia Depoimento).

Na Rua das Farmácias, no início da Asa Sul, praticamente todos os estabelecimentos têm pelo menos um usuário de drogas na porta. Eles pedem esmolas para os clientes. À noite, o movimento é ainda mais intenso. A venda de entorpecentes ocorre, principalmente, próximo ao Hospital de Base do DF e no Setor Comercial Sul.

O medo também é constante. Na 304 Sul, a panificadora Pepita de Minas foi assaltada duas vezes em um ano. A proprietária, Débora Martins Assunção, conta que, da última vez, os ladrões entraram malvestidos e carregaram apenas moedas e algumas notas do caixa. “A gente via que era para comprar drogas. O tipo de assalto é diferente”, conta. Garrafas de vinhos que ficam na entrada da padaria também são furtadas constantemente.

Lojas fechadas

Para o presidente da Associação Comercial do DF, Cléber Pires, a situação tende a piorar, caso não haja um aumento no efetivo policial. “A população só aumenta, mas a quantidade de policiais nas ruas diminui. Tenho a convicção de que o tráfico de drogas vem crescendo a cada ano, mas falta estrutura para a polícia trabalhar”, acredita. Na Asa Norte, ele diz que 18% dos estabelecimentos comerciais fecharam. “Um dos itens que contribuiu para a decadência do comércio foi a segurança pública”, afirmou.

Na Paróquia São Camilo de Lélis, na 304 Sul, foi preciso instalar câmeras de segurança e substituir a caixa de madeira onde eram depositados os dízimos e as ofertas dos fiéis por um cofre de aço. Até mesmo um aparelho de controle de som precisou ser fixado no concreto. Isso porque, há oito meses, usuários de droga tentaram carregar o dinheiro da igreja e o equipamento eletrônico. Não conseguiram porque o porteiro os flagrou. “Infelizmente, nem aqui podemos rezar em paz. A gente sabe que eles pedem dinheiro e fazem furtos para comprar droga e alimentar o tráfico. A gente oferece ajuda para tratamento, mas só um deles quis mudar de vida. Essas pessoas precisam de tratamento, e o traficante, de uma punição ainda mais severa”, defende o administrador da paróquia, José Marcelo Magalhães.

Fonte: Correio Braziliense