CrackUm ano após a ocupação poli­cial da cracolândia, na região da Luz, centro da capital, o go­verno do Estado começa hoje o programa de incentivo à in­ternação compulsória de vicia­dos. O plantão judiciário que avaliará se os dependentes de­vem ser levados para trata­mento, mesmo contra a vonta­de, passará a funcionar às 9 ho­ras. Movimentos sociais estão se organizando para protestar contra a medida.

 O governo afirma que a inter­nação compulsória só será indi­cada a dependentes químicos cujo estado de saúde seja grave e que, comprovadamente, não te­nham consciência de seus atos. Um exemplo de quadro clínico de usuário de drogas considera­do grave, segundo médicos, é ter uma convulsão na rua ou uma cri­se de abstinência muito forte.

 Pessoas nessas situações se­rão encaminhadas ao Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Gratod), na Rua Prates, também no centro, que fica aberto 24 horas. Lá, vão pas­sar por avaliações médicas e psi­cológicas. O caso, então, será en­caminhado para o plantão, que funcionará em dias úteis das 9 às 13 horas. A junta, formada por ad­vogado, promotor e juiz, defini­rá se o paciente deve ser interna­do.

 Ato público. A Pastoral do Po­vo de Rua, coordenada pelo padre Júlio Lancellotti, o Coletivo Desentorpecendo a Razão (Dar) e outros movimentos sociais pre­tendem fazer vigília na frente do Cratod a partir das 8 horas.

 O grupo pede explicações ao Estado sobre o funcionamento do programa e o número de lei­tos à disposição dos usuários de drogas. As associações também cobram garantias de que o gover­no não fará uma internação em massa para “limpar” o centro.

 “Conheço casos de pessoas que querem ser internadas, pro­curam os equipamentos públi­cos, mas não conseguem porque faltam vagas. Se não há vagas pa­ra quem quer se tratar, onde o governo vai encontrar vagas pa­ra as internações compulsó­rias?”, questiona a assistente so­cial Sílvia Lima, de 47 anos, que trabalha com população de rua na capital. A Secretaria de Esta­do da Saúde afirma ter 691 leitos em todo o Estado.

 “Nosso medo é que esse programa se torne uma caçada hu­mana para tirar os moradores de rua do centro”, completa Sílvia, que estará no protesto de hoje.

 Convênio. Ao assinar os termos de cooperação com Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Mi­nistério Público Estadual (MPE) e Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), a secretária de Estado de Justiça, Eloísa de Souza Arruda, afirmou que a no­va política “não é um projeto hi­gienista nem de internação em massa”.

 A internação compulsória é uma segunda frente no combate ao consumo de crack, segundo o governo. Antes disso, os 50 vo­luntários da Missão Belém, man­tida pelo padre Gianpietro Carraro, tentam convencer os usuá­rios a se internar voluntariamen­te. Os funcionários também estão em tratamento.

Fonte: Estado de S. Paulo