José-Beltrame-MarianoO sucesso da política de segurança pública, especialmente pelo projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), alçaram o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, ao status de celebridade local. Aprovado pela maior parte da população, Beltrame enfrenta um cenário distinto de seus antecessores, normalmente muito criticados. Aplaudido em público, é visto como um nome que chegaria como favorito para a sucessão do governador Sérgio Cabral (PMDB).

 Sem qualquer filiação partidária, Beltrame, no entanto, nega com veemência qualquer possibilidade de entrar para a política. Admite que não faltam “sugestões” para que se candidate futuramente, mas alega que sua negativa tem motivação “muito pessoal”.

 Sustenta que não faz qualquer plano em relação ao futuro, por viver a condição de secretário 24 horas por dia. “Só não sei o que vou fazer amanhã”, afirma, se apressando logo em negar, novamente, qualquer possibilidade com a política. “Mas a política não está no amanhã. Não está mesmo”, destaca.

 Terra: Diversas operações vêm sendo feitas para combater a corrupção policial, e ligações dos homens da lei com o tráfico de drogas e a milícia. Na operação Guilhotina, no ano passado, a associação de delegados o criticou bastante, dizendo que o senhor cometeu abusos. A que o senhor atribui essa resistência? Isso atrasa o combate aos maus policiais?

 José Mariano Beltrame: O que as polícias precisam entender é que as instituições policiais repudiam a corrupção. Hoje, há corregedorias que estão num emaranhado de processos, e ficam envolvidos em pilhas de processos, nos quais tudo é urgente. Quando tudo é urgente, não existe urgência. O que pretendemos fazer é antecipar, ou seja, as corregedorias precisam sair para fazer as investigações, que não esperem apenas a denúncia chegar. Esse trabalho que está sendo feito é exemplar. Acredito na condenação e expulsão de todos os acusados.

 Há essa resistência porque é difícil a polícia investigar a polícia. Alegam que vão morrer, que podem ser perseguidos. Mas qualquer instituição tem que demonstrar que tem coragem e força de cortar na própria carne. Acho que estamos caminhando nesse sentido. Haverá trabalhos dessa natureza, daqui para frente, cada vez com mais qualidade.

 Terra: As milícias estão mais enfraquecidas? O deputado Marcelo Freixo costuma criticar a secretaria, por entender que não se faz o combate necessário. O que o senhor pensa a respeito desta crítica?

 Beltrame: Acho que o Freixo está fazendo o papel dele. E se a secretaria não combate as milícias como deveria fazer, te diria que nunca as combateram. Se tem alguém aqui que combate as milícias, somos nós. A milícia ficou sem combate no Rio durante 15, 20 anos, e adquiriu uma gordura, uma expertise para atuar. Depois que a gente chegou, é que se começou efetivamente a atacar isso. Neutralizar a milícia é difícil. Se tem alguma coisa no Rio que pende para o crime organizado, é a milícia. Não é o tráfico, que não tem nada a ver com organização, pelo menos em tese. A polícia teve que começar a fazer isso, porque o combate ao tráfico de drogas é feito há anos. Milícia não se fazia, e não é fácil de fazer, porque não tinha um tipo penal. Tinha que pegar o policial de folga, cobrando pedágio de alguém, armado, montar isso e apresentar ao Ministério Público como um crime. Isso veio crescendo, pegando corpo. Ainda tem muito o que se fazer, mas se olhar para trás, e ver o número de milicianos presos antes da gente, e ver o que tem hoje, não dá para dizer que a gente não faz.

 Terra: O senhor já foi apontado como xerife, e chega a ser visto por alguns como um herói. O que acha desses rótulos?

 Beltrame: Acho que há um exagero. Não me considero xerife nem chefe de nada. O que a gente fez aqui, todo mundo sabia que tinha que ser feito, essa é a verdade. O Rio de Janeiro inteiro sabia, os sociólogos sabiam, a polícia sabia, a população sabia. Se tem micro Estados paralelos dentro de um Estado formado, você tem que entrar neles. Só que não fizeram. A gente leu o que todo mundo leu, e, obviamente, com o apoio do governador, lançou essa proposta, como uma possibilidade de melhora. Os indicadores até aqui são animadores, mas temos problemas. A UPP não é o melhor dos mundos, ela não é o processo de pacificação em si. A UPP abre a porta para que isso aconteça.

 Terra: Seu nome costuma ser apontado como um possível candidato ao governo estadual em 2014, ou como vice na chapa de Luiz Fernando Pezão, atual vice-governador. O senhor sempre negou essa possibilidade. Entrar para a política está descartado?

 Beltrame: Não tenho pretensão política. Não tenho pretensão de ser político. Quero que fique muito claro, não tenho nada contra a política. Até acho que é pela política que as coisas, feliz ou infelizmente, as coisas se resolvem. Não tenho essa pretensão. É uma coisa muito pessoal.

 Terra: Há muitos convites para que o senhor entre para a política?

 Beltrame: Muitas sugestões me são dadas. Vivo 24 horas isso aqui, e acho que o cara que está sentado aqui não pode pensar em outra coisa. Só não sei o que vou fazer amanhã. Se eu sair da secretaria na semana que vem, eu não planejo nada, seja iniciativa privada, me aposentar, ser delegado… Porque eu e um grupo de pessoas que trabalha aqui vive isso diuturnamente, leva os problemas para casa. Penso que é uma etapa que vou cumprir. Quem tem a honra de estar sentado aqui não pode desperdiçar.

Terra: Mas se o amanhã está indefinido, não há espaço para a política?

Beltrame: Mas a política não está no amanhã. Não está mesmo.

 

Fonte: Jornal do Brasil