A cena fez parar quem passava pela praça. Em 20 de agosto, policiais federais de Belo Horizonte colocaram mordaças e acenderam velas numa manifestação em frente à Assembleia Legislativa mineira. O presidente do Sindicato dos Policiais Federais em Minas Gerais (Sinpef), Renato Deslandes, não hesitou ao justificar o ato cênico: denunciar a retaliação que os policiais estariam sofrendo em decorrência de operações de combate à corrupção realizadas pela prestigiada Polícia Federal.
Os agentes estão mesmo sendo perseguidos por prenderem políticos? É o que dizem alguns grevistas, mas não há indícios concretos que corroborem isso. O perceptível para grande parte da sociedade é que a Polícia Federal mudou seu foco.
Ao contrário de tempos recentes, quando o combate feito pelos federais aos crimes de colarinho-branco ganhava as manchetes, a maior parte das ações da PF (inclusive no Rio Grande do Sul) prioriza outros tipos de delito. Corrupção deixou de ser prioridade, e a imensa maioria das operações é voltada para a repressão ao tráfico e ao contrabando.

ZH fez um levantamento das 151 operações realizadas pela PF no Estado desde 2008 – uma média de 30 por ano. Apenas 10% delas visaram crimes do colarinho-branco e corrupção. O grande destaque foi para reprimir os chamados crimes de fronteira. Mais da metade das operações (79) envolveu tráfico (de drogas, armas ou pessoas) ou contrabando.

Em 2007, o então ministro da Justiça Tarso Genro fez um balanço e mostrou que 20% de todas as 188 operações nacionais da PF naquele ano tinham se voltado contra a corrupção. Ou seja, de um ano para outro a polícia mudou de rumo.

Dois experientes procuradores federais ouvidos por ZH, Douglas Fischer e Alexandre Schneider, dizem ser “inequívoco” que as ações contra corrupção representam um percentual muito baixo das operações da PF. Mas ressaltam que a razão pode ser cultural. Schneider, que integra o Grupo de Controle Externo da PF (com missão de analisar a performance dos inquéritos), considera que um dos motivos para a corrupção deixar de ser prioridade é que investigar colarinho-branco vai muito além de prender, como é com o tráfico.

— Tem de ouvir, rastrear dinheiro, checar bens, às vezes por anos. Dá trabalho. E existe toda uma cultura policial voltada para outros crimes mais visíveis, como o contrabando — analisa Schneider, um dos procuradores que atuaram na maior ação federal envolvendo corrupção em órgão público no Estado, a Operação Rodin, de 2007, que apurou fraude no Detran.

O juiz da 1ª Vara Criminal Federal de Porto Alegre, José Paulo Baltazar Junior, acredita que houve mesmo uma diminuição no ritmo dos casos de colarinho-branco. Mas ressalta que o trabalho contra doleiros continua firme.
Presidente da Associação dos Delegados da PF no Estado, Sérgio Busato está convicto de que a instituição deu uma guinada tática, e a repressão na região fronteiriça virou prioridade. Inclusive em verbas. O orçamento do Ministério da Justiça, ressalta ele, sofreu cortes. Antes de R$ 2 bilhões anuais e mais R$ 1,2 bilhão para o Pronasci, agora o total é de R$ 2 bilhões.
O corte nas verbas se reflete na rotina dos agentes e alimenta a greve, que já dura 65 dias. O governo determinou que todas as diárias sejam submetidas à autorização prévia. Cada vez que o limite é extrapolado, a PF é duramente cobrada.

A Associação dos Delegados da PF chegou a publicar nota insinuando que estaria ocorrendo uma “desidratação (da instituição) voltada a evitar eventual desconforto ao governo, notadamente nas operações de combate à corrupção”. Busato usa palavras mais amenas.

— A PF ganhou respeitabilidade não por priorizar o contrabando, mas por ter atingido a camada política antes imune às investigações. Será que a atual opção agrada à população? — pondera Busato.

Constante embate com as chefias

O torniquete no orçamento da Polícia Federal tem gerado um clima de apatia entre os policiais. Afinal, os cortes atingem diárias, deslocamento de agentes e formação de forças-tarefas para grandes investigações.

O resultado é que, no ano passado, apenas três ações em 30 realizadas no Rio Grande do Sul envolveram crimes como lavagem, subfaturamento de exportações e outras formas de delito praticado por engravatados. Para delegados, o problema não é só redução de recursos, mas a decisão sobre o que deve ser investigado.

Mas não é só com relação a recursos que a Polícia Federal se debate. Há queixa constante de que a chefia não se manifesta com relação aos problemas da corporação.

O diretor-geral da Polícia Federal, o delegado gaúcho Leandro Daiello Coimbra – que evita falar publicamente sobre a crise, sobre a greve e a apatia da polícia –, tem sofrido duras críticas e já teve a demissão defendida por subordinados junto ao Ministério da Justiça.

Desde a Operação Voucher, desencadeada há um ano e na qual a PF prendeu a cúpula do Ministério do Turismo, Daiello também ficou fragilizado junto ao governo federal. A ação foi criticada pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que condenou o uso de algemas na prisão de suspeitos.

— O problema é que o diretor não se posiciona. Se ele adotasse uma postura, essa greve já tinha terminado e as operações seriam feitas, mesmo com redução de recursos para a polícia — aponta um delegado gaúcho.

Daiello foi procurado várias vezes por Zero Hora, mas não deu retorno aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem.
Com greve, até escutas pararam
Por trás da parte visível da greve da Polícia Federal – em que grevistas distribuem pizzas ou doam sangue – há um cenário crítico, que a população não percebe. É que algumas ações de criminosos monitoradas por meio de escutas telefônicas seguem com vigilância reduzida, num boicote decidido pelos grevistas e que preocupa o comando da corporação, procuradores e juízes federais.

Em 17 de setembro, escrivães e papiloscopistas que realizam os serviços de inteligência na PF – como análises de monitoramento telefônico – propuseram suspensão desse tipo de trabalho, em mais uma etapa da greve que começou há 65 dias. A nova ofensiva dos grevistas chegou a atingir cerca de 20 operações que estavam em andamento no Estado. A maioria das escutas já voltou a ser feita, após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que determinou o retorno de 70% do efetivo dos policiais federais ao trabalho. Mas os 30% restantes permanecem com parte das atividades paralisadas.

— A ordem judicial limitou o alcance da nossa greve, mas não parou com ela. Algumas atividades estão paradas, entre elas parte do trabalho de escuta – confirma Ubiratan Sanderson, vice-presidente do Sinpef (Sindicato dos Policiais Federais do Rio Grande do Sul).
Ainda que parte das atividades seja retomada, os agentes estão dispostos a não mais executar funções que julgam ser de responsabilidade de delegados, mas que seriam historicamente feitas pelos subordinados.
— Não vamos mais fazer análise dessas escutas. É função dos delegados. O ritmo da PF se dá pelo trabalho dos agentes, são os agentes que carregaram a polícia sempre – diz Paulo Paes, presidente do Sinpef e diretor da Federação Nacional dos Policiais Federais.

Fonte: Zero Hora