O fato já se tornou um atrativo turístico no povo britânico: os visitantes estrangeiros que observam a cintura dos policiais nas ruas logo notam a ausência de armas, algo que, para a maioria dos habitantes do Reino Unido, já é normal. Porém, trata-se de uma situação única no mundo, pelo menos se consideramos o contexto fortemente urbanizado de suas cidades (países como Noruega e Nova Zelândia também empregam policiais desarmados, mas não possuem centros urbanos como Londres).

Embora recentemente a polícia britânica tenha vivido dois casos em que policiais foram mortos desarmados, a instituição resiste em armar seus homens. Em entrevista à BBC, um dos diretores da corporação afirmou que “no geral, a corporação é apaixonada por este estilo britânico de fazer polícia. Infelizmente, a partir da experiência das Américas por exemplo, sabemos que portar arma não evita que o policial sofra um tiro durante alguma ocorrência”.

Em uma pesquisa interna feita com os policiais britânicos, 82% deles disseram que não queriam passar a portar arma de fogo durante seu serviço, mesmo quando cerca de 50% dos mesmos policiais disseram ter passado por situações que consideravam de “sério risco” nos três anos anteriores à pesquisa. Já a população britânica se divide: 47% são a favor de que todos os policiais trabalhem armados. 48% é contra.

Sempre que um crime violento de grande repercussão ocorre, boa parte dos britânicos reivindicam a intensificação de guarnições policiais armadas no país. Um dado, porém, demonstra o quanto a preocupação é questionável: entre 2010 e 2011 o Reino Unido teve menos de 10 mortes violentas envolvendo arma de fogo.

O princípio institucional que justifica o desarmamento da polícia britânica é o que situa a atuação policial como eminentemente mediadora, e não como mera força de repressão do Estado. Este fator tem a ver com o surgimento da própria polícia daquele país, que nasceu em uma tentativa de desvinculação da instituição policial da tradicional cultura bélico-militar.

Atualmente, cerca de 5% do efetivo está autorizado a portar armas de fogo, distribuídos proporcionalmente nas unidades policiais, atuando em viaturas com grande capacidade de tempo-resposta; sem falar na ampla distribuição de pistolas Taser, que realizam descargas elétricas com o poder de paralisar os oponentes. Além disso, após os ataques de 11 de setembro, locais como aeroportos, embaixadas e outros pontos sensíveis sempre contam com policiais armados.

Em um momento em que a Europa vive a realidade de cortes orçamentários, não precisar gastar com armamento e treinamento específico para os policiais tem sido uma vantagem econômica.

Para a administração da polícia, casos como o do brasileiro Jean Charles, morto em uma desastrosa atuação de policiais que o confundiram com um terrorista, reafirmam que o uso de armas de fogo pela polícia pode ser mais um ônus do que um bônus. Como se vê, uma mentalidade, e uma realidade, bem distinta da que se vive no Brasil.

Colaborou: Igor Siliano.

Autor: Danillo Ferreira – Tenente da Polícia Militar da Bahia, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e graduando em Filosofia pela UEFS-BA