Barões do narcotráfico enxergaram em Brasília a oportunidade de multiplicar seus negócios clandestinos. De olho em um público jovem e rico, eles buscam grandes remessas de drogas em países vizinhos ao Brasil e distribuem no Distrito Federal. Ciente da exigência e do poder econômico do consumidor de entorpecentes da capital, traficantes vendem cocaína pura e cobram quase o triplo do preço do pó comum, que traz na sua composição muitas misturas. A fim de atestar a procedência da substância ilícita, os carregamentos são identificados com selos das organizações criminosas.

 Em março de 2011, a Polícia Civil apreendeu, na 902 Sul, dois quilos de cocaína tipo “escama de peixe”, de coloração mais clara e textura diferenciada. Os tabletes chamaram a atenção dos agentes. Dois deles continham uma impressão do cartel de Barranquilla, cidade ao norte da Colômbia mundialmente conhecida por exportar cocaína para praticamente todos os continentes. A coca potencializada foi encontrada dentro de um BMW e abasteceria os viciados da Asa Sul. O responsável pela carga avaliada em mais de R$ 200 mil era Carlos Alberto Dourado Campos, 43 anos, preso em flagrante.

 A marca do bando colombiano também foi encontrada em meio quilo de cocaína apreendida este ano em Ceilândia. Um adesivo de um gato preto colado na embalagem que envolvia a droga fazia alusão ao cartel. O desenho, além de indicar a origem do tóxico, servia para mostrar a força do grupo. A investida pesada do tráfico no Planalto Central fez as forças de segurança se especializarem. A Coordenação de Repressão às Drogas (Cord) da Polícia Civil vem aumentando ano a ano a quantidade de apreensões. Desde o início de 2012, a unidade especializada da Polícia Civil apreendeu 397kg de cocaína, 78% a mais que o registrado no mesmo período de 2011. Desse total, aproximadamente 4kg eram do tipo escama de peixe, que tem quase 100% de pureza. O quilo chega a custar R$ 100 mil nos bairros nobres da capital do país.

 A intensificação na repressão da Cord também tem resultado em mais gente atrás das grades. Somente de janeiro ao último dia 25, a equipe chefiada pelo delegado Luiz Alexandre Gratão prendeu 113 traficantes, 26% a mais que o registrado no mesmo período do ano passado, quando 89 pessoas foram detidas pelo crime previsto no artigo 11.343 do Código Penal Brasileiro (veja O que diz a lei na página 26). “Nossa estratégia é não deixar pulverizar. Por isso, atacamos o problema na raiz, prendendo os grandes traficantes”, afirma.

Efeitos intensos

O quilo da escama de peixe é avaliado em R$ 100 mil nos bairros nobres, como Lago Sul, Asa Sul e Lago Norte. Em Ceilândia e Taguatinga, a mesma quantidade sai por R$ 40 mil. A cocaína normal é vendida por R$ 10 mil o quilo. A diferença de preço faz muitos viciados saírem do Plano Piloto para comprar trouxinhas nas regiões administrativas, mas investigações detectaram um movimento cada vez maior de jovens da classe média distribuindo o tóxico em festas privadas. Nas altas rodas, dependentes pagam um alto preço em busca de efeitos mais intensos. Exames laboratoriais feitos pela próprio Polícia Civil indicam que a concentração de erythroxylum — o princípio ativo da cocaína — chega a 98% na escama de peixe. No pó comum, esse índice não passa dos 30%.

 De acordo com o delegado da Cord, Brasília é a unidade da Federação onde os traficantes cobram mais caro pela cocaína e por outras drogas. Até a maconha é inflacionada na capital. Em São Paulo, por exemplo, a erva custa a metade do preço. Dois fatores contribuem para o fenômeno: os traficantes levam em consideração a renda per capita do morador da capital e embutem no preço os riscos da prisão — proporcionalmente, o DF tem o maior efetivo de policiais do país.

Colômbia

O Cartel de Barranquilla é uma organização criminosa baseada no norte da Colômbia. Os traficantes construíram uma rede que abastece de cocaína grande parte dos Estados Unidos e alguns países da Europa. Para enganar as forças policiais, eles alternam rotas de contrabando.

Balanço

De janeiro a junho deste ano, os policiais também retiraram das ruas 545kg de maconha, 145% a mais do que os 227kg apreendidos no primeiro semestre de 2011. Em 2012, também já foram recolhidos 970 comprimidos de ecstasy e 100 microsselos de LSD.

Fonte: Correio Braziliense