A máquina na área de embarque internacional do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, lembra uma daquelas de ficção científica. Basta a pessoa dar um passo para dentro do body scanner para a silhueta começar a aparecer na tela com riqueza de detalhes. A imagem, além das gordurinhas, pode revelar qualquer coisa escondida. Desde uma arma no bolso até um pacote com cocaína no intestino.

 A tecnologia tem sido uma das principais armas da Polícia Federal (PF) para manter Cumbica como o aeroporto onde mais se apreende drogas no mundo – no ano passado, chegou a 1,4 tonelada de cocaína. Além do scanner, a PF usa ainda o espectrômetro de massa, que possibilita descobrir se a pessoa teve contato com drogas ou armas. Isso sem falar no aparelho de raio X, nas câmeras espalhadas por todos os terminais e nos sempre eficazes “agentes” caninos.

 “Mas o principal para prender os suspeitos continua sendo o feeling do policial”, afirma o delegado Wagner Castilho, responsável pela PF no aeroporto. Nos últimos dez anos, além do feeling, também aumentou muito o número de policiais, o que refletiu em uma variação de 902% na quantidade de presos. Em 2001, 38 pessoas foram detidas no local. Dez anos depois, foram 381.
 As estatísticas revelam uma tendência dos traficantes: a de mandar mais gente com menos drogas. Em 2010, foram presas 319 pessoas levando 1,7 tonelada de cocaína, menos presos e maior quantidade de entorpecente do que em 2011. “É importante para eles perder o mínimo de cocaína possível”, explica Castilho.
 Em alguns casos, as “mulas” são mandadas em “remessas” pelas quadrilhas. No dias 28 e 29 de fevereiro, duas mulheres – uma filipina e uma tailandesa – foram detidas em situações similares, indicando que podem ter sido enviadas pelo mesmo grupo. Ambas iriam para o Vietnã e levavam cocaína escondida da mesma maneira: em forma líquida em bordas falsas na mala. No ano passado, foram detidos 12 africanos em um mesmo voo. Todos levavam cocaína no estômago.
 Pelo menos metade das mulas aceita o risco de engolir cocaína antes de viajar. A modalidade é preferida por africanos e latino-americanos. Europeus preferem levar a droga disfarçada na mala. A criatividade dos criminosos é um desafio para a PF – eles chegam ao ponto de esconder a droga até dentro de feijões.
 Além das mulas, uma nova preocupação da Polícia Federal é o aumento do número de jovens brasileiros de classe média que vai à Europa para buscar drogas sintéticas, como ecstasy e LSD. “Às vezes, eles vão para a Europa levando cocaína e voltam trazendo drogas sintéticas”, explica o delegado Castilho.

Fonte: Estado de S. Paulo